Você já se sentiu pequeno? Eu já. E não falo de altura; a última vez que me medi, tinha 1,72 m, e estou longe de entrar para o clube dos hobbits. Ainda assim, me sinto pequeno em um mundo enorme.
Este ano, tomei a decisão de iniciar duas graduações simultaneamente: Relações Internacionais e Teologia. Ambos os cursos demandam tempo e muito comprometimento. Sendo sincero, o que me causa ansiedade não é a possibilidade de um esgotamento mental gerado pelas leituras obrigatórias, mas a incômoda sensação de que, ao ler sobre o passado, parecemos presos em um ciclo cruel: a ascensão repetitiva de governos autoritários, guerras que mudam de endereço, mas não de lógica, e injustiças que se tornam mero plano de fundo nos noticiários.
Diante disso, uma pergunta ecoa: quando alguém vai fazer alguma coisa? Olho-me no espelho, vejo um rapaz extremamente comum e sinto que jamais conseguirei alterar os rumos da situação em que o mundo se encontra.
¡Viva la revolución! À moda judaica
Esse senso de impotência traduz exatamente a perspectiva dos habitantes da Judeia do período interbíblico — os 400 anos de ausência de revelação canônica entre o encerramento do Antigo Testamento e o início do Novo. Essa época coincide com o período do Judaísmo do Segundo Templo. Se você aprecia a leitura dos livros de N. T. Wright, deve estar familiarizado com esse momento histórico sendo citado recorrentemente nas obras do teólogo anglicano.
Esse período engloba os acontecimentos posteriores à reconstrução do Templo de Jerusalém por Zorobabel que, mais tarde, seria ampliado por Herodes, o Grande. Foi também um período de grande produção literária e desenvolvimento da cultura judaica. No entanto, mesmo com o templo de pé, os judeus repatriados após o exílio na Babilônia viviam sob o sufocante domínio de impérios estrangeiros.
O estopim da insatisfação popular ocorreu em 167 a.C., quando o imperador selêucida Antíoco IV Epifânio proibiu os sacrifícios, a circuncisão e a guarda do sábado sob pena de morte. Pior do que isso: ele profanou o Templo de Jerusalém ao erguer um altar a Zeus Olímpico no local de culto ao Deus de Israel (os fãs de Percy Jackson certamente não esperavam esse crossover de divindades).
Não muito longe dali, no vilarejo de Modin, a indignação transbordou. O sacerdote local, Matatias, recusou-se a curvar-se às exigências de Antíoco e incitou uma resistência armada. Devido à sua idade avançada, Matatias faleceu logo no início do conflito e nunca viu os frutos de sua empreitada revolucionária. Coube ao seu filho, Judas Macabeu, assumir o comando do levante que, em sua homenagem, ficaria conhecido como a Revolta dos Macabeus.
A historiografia e os textos apócrifos de I e II Macabeus registram que aquele pequeno contingente de judeus desafiou o poderoso Império Selêucida. Por meio de táticas de guerrilha, eles conquistaram a autonomia política dos judeus e purificaram o templo, evento celebrado até hoje na festa do Hanucá.
Jesus entre os guerrilheiros
Ainda assim, longe de qualquer romantismo, é preciso encarar a realidade: eles não eram heróis perfeitos. A espada resolveu uma crise imediata, mas não expurgou a raiz da fragilidade humana. Mais tarde, a dinastia Hasmoneia, estabelecida pelos próprios descendentes dos Macabeus, afundou em corrupção, nepotismo e alianças escusas com Roma. Ficou provado, mais uma vez, que o abuso de poder oriundo da influência do pecado tende a corromper até mesmo quem inicia seus projetos com as melhores intenções. Mudaram-se os reis, mas o ciclo de opressão permaneceu.
O relato bíblico demonstra que o ponto de virada definitivo para os habitantes da Judeia, e também de toda a humanidade, não veio pela vitória de revolucionários armados, mas pelos pregos cravados nas mãos e nos pés do Servo Sofredor. Entra em cena o rabino de Nazaré, Jesus Cristo, anunciando que o Reino de Deus não seria inaugurado pela força das espadas, mas pelo confronto decisivo contra o império do pecado. Enquanto os Macabeus usaram a violência para purificar um templo de pedra, Jesus entregou o próprio corpo para rasgar o véu desse mesmo templo, redefinindo para sempre o nosso relacionamento com o Criador.
Os sonhos de um Messias bélico foram frustrados. Cristo não entrou pelas portas de Jerusalém ao som de Viva la Vida, do Coldplay, bradando por uma revolução política armada. Ele agiu de forma amorosa e perfeitamente justa, o único digno do título de Rei dos judeus e do mundo inteiro. Sua vida corporificou um tipo inteiramente novo de revolta: a revolta de Deus contra o pecado e a morte.
Compreender essa realidade muda completamente a perspectiva sobre a nossa própria insignificância. Nossa pequenez diante das engrenagens macroestruturais do mundo é um fato; usá-la como desculpa para a apatia, porém, é a covardia que os autores bíblicos repetidamente condenam.
Não fomos chamados para imitar os macabeus e tentar resolver as crises históricas à nossa própria maneira, nem para nos alienarmos dos problemas reais da contemporaneidade. Fomos chamados para imitar Jesus e seguir os seus passos, anunciando que existe esperança para este mundo caído. Ele mesmo é a nossa esperança.
O que acalma as minhas crises recentes é, e continuará sendo, o sepulcro vazio. O triunfo de Cristo sobre o pecado é o sinal definitivo de que o mundo não está apenas em ruínas, mas está sendo ativamente restaurado. Podemos até insistir no lamento do sábado, mas já é manhã de domingo.




Obrigado por compartilhar estes pensamentos. Parabéns que texto claro e gostoso de ler.
Como não tenho muitas palavras para descrever a leitura desse texto, limitarei apenas para: UAU!